Os velhos







Velhos e velhas caminham no parque. Vão perdidos de si na lembrança de quando as suas pernas serviam para mais coisas. E para mais destinos. Levam visões esquecidas da pele engelhada. A memória generosa das coisas antigas traz as suas mães.

Velhos e velhas caminham no parque, de mãos dadas com as mães a sorrir de orgulho. Com as mães a sorrir.

Às vezes os corações saem e correm pelos trilhos refeitos da infância. Corações alegres, a baloiçar, empurrados pelas mães que sorriem.

Crianças velhas caminham pelo parque. Sombras rectas de corpos curvados. Sorrisos viçosos em bocas tolhidas. O ar entra e sai dos seus corpos como se respirar fosse ainda um projecto de vida. Como se precisassem do peito para o amor da carne.

Amantes velhos caminham no parque. Vão perdidos de si na lembrança de quando as suas pernas serviam para mais caminhos. E para mais destinos. Forçam os passos para que a vida não fique ali parada de vez, na varanda gasta da cozinha. Velhos e velhas, a acender os contornos geométricos do parque, para que sempre haja memória da forma que tudo tinha quando o ar ainda entrava e saía dos seus corpos de livre vontade.

Velhos e velhas caminham no parque. Vão perdidos de si na esperança de que o chão seja mais do que pouso para as coisas de ver e pensar.

[inédio] 

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